quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Novo serviço reúne pessoas para compartilhar conhecimento

“Todo mundo quer aprender alguma coisa. E todo mundo tem algum conhecimento que gostaria de ensinar.”
Foi a partir dessa premissa que os amigos Daniel de Barros, Mauro Rego e  Leonardo Correa criaram a plataforma de crowdlearning Nós.vc. Eles acreditam que o aprendizado não deve se restringir a fases da vida ou a instituições.
Crowd é multidão. Learning é aprendizagem. E crowdlearning é um modelo em que pessoas apaixonadas pelos mesmos assuntos aprendem e ensinam lado a lado. O Nós.vc é a primeira iniciativa brasileira neste segmento e acabou de ser lançada. A plataforma permite que pessoas possam aprender e ensinar uns com os outros de maneira colaborativa.
Como funciona
1 – Qualquer um pode criar uma oficina, curso, workshop ou debate e ensinar qualquer coisa que seja. O líder é quem propõe, lidera um encontro e inspira os participantes.
A equipe do Nós.vc é responsável por providenciar materiais, espaço físico, transporte do líder, alimentação, sistema de pagamento e o que for necessário para a realização do encontro.
2 – O próximo passo é colocar a proposta em votação e o público pode sugerir como melhorar a ideia para tornar o encontro real.
3 – Com todas as informações sobre o encontro confirmadas, os participantes podem fazer as inscrições através do site.
Há dois tipos de encontro, o primeiro é o “Nós.vc” que é pago e organizado pela equipe da plataforma e pelo líder e o outro é o “Nós.vc Independente”, modalidade que apenas utiliza o serviço e os participantes pagam o quanto quiser.
Para votar
Uma das propostas que estão no ar atualmente é a “Mude o Mundo”. Ela propõe o encontro de diversas pessoas, com diversas formações e idades, para discutir a realidade e os problemas paulistanos e, principalmente, propor soluções concretas. O participante paga o quanto quiser depois do encontro.
Na proposta “Educação Fora dos Moldes”, o líder Rafael Arrivabene quer discutir ideias e opiniões sobre educação, modelos diferentes que já existem ou mesmo novos modelos, inovadores. A dinâmica principal será a participação dos encontristas, compartilhando de suas experiências ou opiniões sobre o assunto, promovendo um brainstorm sobre possíveis rumos para a Educação.
A design Erica Ribeiro quer provar que “Nada se inventa, tudo se copia”. Para isso, ela propõe debater formas de criação que têm a cópia como base. A ideia é fazer projetos com o objetivo de compartilhá-los, conhecendo o creative commons e as iniciativas de cultura livre.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O conhecimento na ponta dos dedos

Na quarta-feira, 4 de janeiro, comemorou-se o Dia Mundial do Braile, em homenagem ao francês Louis Braille, nascido nesse dia no ano de 1809.

Para não se confundir o nome do sistema com o sobrenome do seu criador, convencionou-se grafar o primeiro com apenas um “l”, o que, nos dias de hoje, com tantos sinais e abreviações espalhados pelas redes sociais, pode parecer um preciosismo.

De volta a Braille, o educador, sabe-se que ele perdeu a visão aos três anos e, quatro anos depois, entrou para o Instituto de Cegos de Paris, no qual se formou professor aos 18 anos, em 1827.

O método criado por ele foi publicado em 1829, embora tenha sido oficialmente adotado tanto na Europa quanto na América somente em 1852, ano de sua morte.

Inclusão social e cidadania

O sistema Braile permite a formação de 63 caracteres diferentes, os quais representam as letras do alfabeto, os números, a simbologia científica, a musicográfica, a fonética e a informática, a partir da combinação de seis pontos dispostos em duas colunas e três linhas. O sistema se adapta perfeitamente à leitura tátil, pois os seis pontos em relevo podem ser percebidos pela parte mais sensível do dedo com apenas um toque.

Braille o teria desenvolvido com base no que ouviu falar de um esquema de pontos e buracos inventado por um oficial para ler mensagens à noite e em lugares sem luz.

Segundo informação da Fundação Dorina Nowill para Cegos, o sistema chegou ao Brasil em 1850, através do jovem cego José Álvares de Azevedo, mas foi praticamente 100 anos depois, na década de 1940, que o Braile foi difundido.

Em 1946, com a criação da Fundação para o Livro do Cego no Brasil (atual Fundação Dorina Nowill para Cegos), a produção de livros em Braile passou a desempenhar importante papel na alfabetização de deficientes visuais e no consequente acesso deles ao conhecimento.

Há quem diga que nos últimos 60 anos não há no Brasil uma só pessoa cega alfabetizada que não tenha tido em suas mãos pelo menos um livro em Braile produzido pela fundação.

Apenas em 2011, foram impressos mais de 270 novos títulos em Braile. Ao todo, mais de 90 mil exemplares já foram distribuídos a cerca de 2.000 organizações e para as 5.000 bibliotecas públicas municipais do país, contribuindo para a inclusão social de 3,5% dos brasileiros (582.624 cegos e 6.056.684 com baixa visão), segundo o Censo 2010.
Capacitação de professores

Para Maria Glicélia Alves, pedagoga da Fundação Dorina Nowill, “a falta de informação é ainda o principal problema em relação ao Braile. Muitos professores acham que é simples ensinar o sistema a um aluno cego, mas a alfabetização tem as suas especificidades e o professor, para realizar essa tarefa com êxito, tem de buscar ajuda”.

“Entre 2000 e 2007, houve um aumento de 100% de alunos com deficiências em salas de aula no ensino fundamental. Nesse período, o número subiu de 221.652 para 463.856, de acordo com o Ministério da Educação. A grande maioria é de estudantes com baixa visão. Alunos com cegueira total aparecem em quinto lugar, depois daqueles que têm outros tipos de deficiência, como a auditiva e física”, relata Maria Glicélia.

Semestralmente, a Fundação Dorina Nowill realiza cursos presenciais de capacitação para professores em sua sede, em São Paulo (SP). O primeiro do ano será “Braile para Educadores – Apoio Essencial em Sala de Aula”, de 16 a 20 de janeiro.

A pedagoga conta que o curso oferece noções básicas do sistema Braile, enquanto técnica de leitura e escrita para acompanhamento e apoio do aluno com deficiência visual na sala de aula.

Ela lembra que a educação inclusiva evoluiu bastante nos últimos anos, mas ainda há muito que fazer. “A especialização do professor que trabalha com alunos deficientes é um desafio. Acima de tudo, a inclusão tem que começar na própria família do deficiente. O desconhecimento das necessidades da criança cega pode, muitas vezes, significar o seu isolamento de um mundo no qual todos têm os mesmos direitos e oportunidades.”

Fonte: UOL Noticias

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Rir é preciso

Avessa ou indiferente ao riso, a escola perde a oportunidade de usar o (bom) humor como recurso didático e elemento inibidor de conflitos

Paulo de Camargo


No célebre best-seller O nome da rosa, o filósofo Umberto Eco oferece ao leitor uma trama que passa pela obstinação de um monge em fazer desaparecer uma fictícia obra manuscrita de Aristóteles sobre um tema incômodo para a igreja medieval: o riso. O cenário era um milenar mosteiro europeu. Mas assim como nas conhecidas comparações que aproximam escolas e outras instituições que resistem a mudanças, esta história também poderia ser contada, ainda que com algum exagero, nos colégios atuais. Avessos ou, pelo menos, indiferentes ao tema do humor, os colégios perdem uma excelente oportunidade de abrir espaço para uma manifestação tipicamente humana, associada com inteligência aguda, capaz de motivar professores e os alunos e gerar um ambiente de melhor qualidade, justamente em tempos em que as brincadeiras de mau gosto e violentas, como o trote e o bullying, ganham as manchetes de jornais.
"Ninguém fala disso nas escolas, o que é uma pena", diz a psicóloga Denise Gimenez Ramos, professora de pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "Este é um tema fundamental, pois tem a ver com inteligência e saúde mental", resume. "A escola desdenha ou não vê valor em uma área que é muito rica e traz debates muito atuais e significativos", complementa o psicólogo Yves de La Taille, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), que vem pesquisando sobre as relações entre o humor e o campo da moralidade.
Numa espécie de contrassenso, as escolas são espaços onde se ri - e muito, ainda que quase sempre da sala de aula para fora e de forma algo clandestina. Segundo Denise, há pesquisas que mostram que uma criança chega a rir 300 vezes por dia. Mas, na escola, por ser associado com bagunça, quebra de hierarquia, indisciplina, o riso frequentemente não encontra espaços de expressão.
Há pelo menos três formas de notar a importância - e talvez a urgência - desse tema no meio educacional, em especial na Educação Básica. Em primeiro lugar, o humor possui um conhecido efeito de distensionar o ambiente. Em um momento em que se fala tanto em resolução de conflitos no espaço escolar, o humor pode funcionar tanto como um antídoto para relações excessivamente conturbadas, como um catalisador para relacionamentos humanos mais saudáveis. "O bom humor tem a ver com a capacidade de lidar com estresse e é um natural mediador de conflitos", explica Denise Ramos.
O humor também pode se apresentar como um caminho para encurtar a distância cultural cada vez maior existente entre as gerações de professores e de alunos, o que tem impacto direto na sala de aula. Favorece o diálogo, promove vínculos e, principalmente, humaniza o relacionamento. Segundo o pesquisador James Neuliep, da Universidade de Wisconsin, que faz pesquisas sobre o assunto, como há uma natural diferença de status entre professores e alunos, o humor ajuda os estudantes a compreender o lado humano do docente. "Quando utilizado adequadamente, ele pode ajudar a reduzir a distância psicológica entre professores e alunos", escreve Neuliep, em artigo publicado no site da ASCD, uma organização norte-americana para o desenvolvimento curricular.
Nessa vertente, podem ser consideradas não apenas as ações intencionais do professor para criar um ambiente mais descontraído, como também estratégias didáticas que têm no humor sua pedra de toque - como, por exemplo, o uso de jogos e brincadeiras na alfabetização, no ensino da matemática e de outras disciplinas.
Essas representam, por assim dizer, percepções mais imediatas do papel positivo do riso na escola. Mas, na medida em que o nível de reflexão sobre o papel do riso se aprofunda, é possível notar que há muito mais do que descontração sob uma risada. Está em jogo a possibilidade da escola de trabalhar sobre aspectos mais profundos da educação, como a busca de sentido para a vida.
Para Denise, as escolas não apenas deveriam ver no humor uma forma de crescimento pessoal, mas ativamente buscar desenvolvê-lo, já que se trata, segundo ela, de uma atitude que também pode ser ensinada e que frequentemente se aprende por imitação. Segundo ela, bom humor não é simplesmente dar risada de qualquer coisa, mas desenvolver um senso crítico, o que tem a ver com a possibilidade de distanciamento e de auto-observação. "O bom humor se relaciona com a capacidade do indivíduo de refletir, ou seja, conforme a etimologia da palavra, de dobrar-se sobre si mesmo", afirma. "O problema é que na escola aprendemos muito sobre a história do mundo, mas pouco sobre nós mesmos", diz.
Yves de La Taille, por sua vez, defende que há questões verdadeiramente existenciais por trás do humor. "Para uma geração de jovens que está doida para encontrar algum sentido na vida, é um prato cheio", diz o pesquisador. Uma das razões que revelam a importância do humor é justamente a sua universalidade. "Todo mundo ri, seja bebê, seja idoso, em qualquer cultura humana, em toda parte do mundo", afirma. Contudo, diz Yves, as razões pelas quais se ri são muitas - e o humor é apenas uma delas.

Gustavo Morita
Está rindo de quê?
Há centenas de anos, escritores, cientistas, filósofos, pensadores de várias áreas tentam categorizar o riso e suas causas, que podem variar da alegria à vergonha, ou ser despertado pela ironia, pelo exagero, pela humilhação, entre muitos outros fatores. Do ponto de vista técnico, pode-se falar do que provocam as gargalhadas, como o exagero, a surpresa ou a detecção do que há de repetitivo e característico nas pessoas e nas culturas.
Para os estudiosos do cérebro, o riso também é um campo de estudo interessante. Segundo Elvira Souza Lima, pesquisadora em neurociência e educação, a gargalhada, o sorriso e o riso são reações primitivas do cérebro humano, e estão ligadas à sobrevivência da espécie, ao estimular a liberação da chamada "química positiva", próxima à zona de prazer. A gargalhada, assim como o choro convulsivo, produz reações de contágio, assim como o bocejo.
Mas há um aspecto que Elvira considera particularmente importante para a educação. "O humor tem uma capacidade de subverter a ordem como as coisas estão armazenadas na memória de longa duração. Assim, introduz elementos novos nos esquemas prontos, e por isso está ligado à subversão da ordem dada e à curiosidade", conta. Por razões como essa, é um componente fundamental no modo pelo qual os seres humanos aprendem a se relacionar e a lidar com o cotidiano.

Entre tantas definições, La Taille enxerga que há pelo menos uma convergência entre as diferentes abordagens sobre o riso: a diferenciação entre o riso bom e o riso mau, o que traz à tona o critério moral. Para ele, um bom ponto de partida pode ser a definição dada por um humorista francês, chamado Marcel Pagnol, para quem o riso é um 'clamor de superioridade'. Desse ponto de vista, rimos quando nos sentimos superiores a algo ou capazes de lidar com as situações em que estamos envolvidos. Por isso, saber rir de si mesmo é um traço positivo de personalidade que denota humildade, consciência das limitações das pessoas e um distanciamento que permite enfrentar com mais leveza a comédia humana.
Já no riso negativo, o que está em jogo não é a nossa superioridade, diz, mas a inferioridade dos outros. E aí começa o perigo, que pode ser compreendido por um exemplo familiar a todos: as piadas. Segundo La Taille, geralmente as piadas falam porque tratam daquilo a que nos sentimos superiores, frequentemente em relação ao quesito inteligência: versam sobre a burrice, a vaidade, a avareza. Os protagonistas variam conforme as culturas. No Brasil, há piadas de português, como na França se fala dos belgas. Na verdade, pouco importa quem seja, pois o que está em foco é a posição ocupada por quem conta. Há um gênero de piadas no qual a razão do riso é especificamente a inferioridade do personagem de quem falamos. "Nas piadas nazistas, vemos que ela se reporta diretamente à inferioridade do negro e do judeu", exemplifica La Taille. Do mesmo modo, em situações típicas do meio educativo, como o trote e o bullying, o riso provém da humilhação, e a graça vem da inferioridade do perseguido.

O direito de rir
A distinção entre o riso negativo e o positivo remete diretamente à questão que vem sendo estudada pelo grupo da USP: o direito ao riso. Do que podemos rir, então, sem cair nos limites estreitos do politicamente correto? Esta pergunta pode dar início, na escola, a um mundo de reflexões éticas que vem sendo realimentado frequentemente pela mídia em casos como o do humorista Danilo Gentili, por exemplo, quando disse que os judeus de Higienópolis, em São Paulo, não queriam o metrô porque o associavam com os trens que os levavam para o campo de concentração. "A última vez que chegaram perto de um vagão, foram parar em Auschwitz", teria escrito.
La Taille lembra outro humorista francês, Raymond Devos, para quem só temos o direito de rir sobre os valores fortes e seguros de uma pessoa ou de comunidades. Desse ponto de vista, inadequada é a piada sobre tragédias recentes, sobre pessoas fragilizadas e situações dolorosas que ainda não foram bem absorvidas. Este é, porém, um campo mais de debates do que de consensos, e por isso se mostra especialmente fértil para o trabalho em sala de aula. Até porque, defende o psicólogo, praticamente 90% do bom humor refere-se ao humor crítico, uma competência cara à escola e à educação contemporânea. Neste específico, trata-se de uma criticidade turbinada, tanto que os programas de humor sofrem restrições em períodos eleitorais. Promover o posicionamento, a compreensão do que está em jogo em uma situação de humor pode ser um debate interessante.
Outro elemento rico da cultura contemporânea trazido pelo humor são os próprios programas televisivos, frequentemente criticados. Segundo La Taille, isso ocorre porque é humanamente impossível ter um humor inteligente todo o tempo. Por isso, os programas apelam para outras formas de estimular o riso, com frequência o sexo. "O riso do sexo não vem do humor. É causado pela vergonha e pelo constrangimento, tanto que se pode notar que se ri de forma histérica nessas situações", reflete. Mais um tema para a sala de aula.
Seja como for, a riqueza do humor pode ser explorada de muitas maneiras pela escola. Para isso, segundo Denise Ramos, da PUC-SP, é preciso que ele não seja associado com irresponsabilidade ou desorganização. "Podemos ser pessoas muito bem-humoradas e extremamente responsáveis, pois não há nenhuma contradição nisso", lembra. Para ela, o humor traduz um princípio existencial que interessa a todos, e é uma lição para qualquer idade: a necessidade de se lembrar do que é, de fato, essencial, dando a proporção devida aos acontecimentos. A seu ver, o humor amplia essa consciência. "Tirando as situações de vida e de morte, nada é tão importante assim", conclui.

O humor na sala de aula
Para a pesquisadora Elvira Lima, há uma contradição importante no silêncio das escolas sobre o humor. "Somos uma cultura alegre, que valoriza o riso e a música, e ambas quase sempre estão fora da vida escolar", diz a pesquisadora. Consultora educacional, Elvira vem trabalhando nos últimos anos com escolas indígenas, e lembra que o traço humorístico da cultura brasileira é em grande parte tributário dos índios. "Estudos antropológicos vêm mostrando que os índios influenciaram muito esse traço. É raro ver um índio gargalhar, mas a expressão do humor está no seu cotidiano de forma muito forte", conta. Nas escolas onde trabalha, a inclusão da música e de atividades lúdicas reduziu muito situações de conflitos entre os alunos.














Experiências
Para Elvira, o tema é de tanta importância que deveria fazer parte da formação de educadores. Segundo ela, um dos entraves que vêm sendo estudados por psicólogos sobre a dificuldade de aprendizagem é o medo que muitos alunos sentem de não aprender, do professor ou da própria instituição. "O estado de alerta é decorrente do medo, e acaba bloqueando o caminho da aprendizagem", diz. Um ambiente educativo com a leveza do humor desarma esse gatilho e aproxima o aluno do conhecimento.
As escolas que fizeram uma escolha consciente de trabalhar com ou sobre o tema do humor relatam experiências muito positivas. Essa possibilidade foi bem explorada pela Escola Viva, em São Paulo, ao longo do último semestre. Lá, os alunos de 7o ano de ensino fundamental estudaram, no curso de artes cênicas, os estereótipos da cultura brasileira. O caminho encontrado para isso foi justamente o da comédia. Fazendo a leitura de programas televisivos, estudando clichês do humor, os jovens experimentaram os diferentes recursos usados na produção do riso. 
Trabalharam sobre o humor despretensioso, passando por Charles Chaplin ou Jerry Lewis (mais "palhaço") e, em um segundo momento, com o humor crítico, explorando a estratégia do exagero e das mensagens rápidas para captar a atenção do público. No pano de fundo do estudo, estavam a discriminação, o ridículo e o preconceito, muitas vezes veiculados nos programas humorísticos. "O humor é um dos canais que permite e sustenta a possibilidade de se trabalhar essas questões", explica a coordenadora de comunicação, Marta Campos. Ao final do projeto, os estudantes fizeram sua própria apresentação, com suas criações satíricas, não sem antes ter passado por autores como Millôr Fernandes e Ariano Suassuna.
O humor na literatura é, aliás, um dos exemplos de como o riso não é mesmo levado a sério na educação. Basta olhar o programa de leitura, onde raramente são destacadas comédias e outros textos literários marcados pelo humor, ainda que de alta qualidade estética. "No entanto, o humor tem características artísticas plenas, como se vê no francês Molière ou mesmo em quadrinhos, como Asterix, por exemplo", exemplifica Yves.
Essa percepção é compartilhada no colégio Ítaca, em São Paulo, pela diretora Mercedes de Paula Ferreira. Em sua escola, o humor entra no estudo dos diferentes gêneros linguísticos e literários. Sempre há um trabalho (com esses e outros textos) que passa pela questão do humor e também pelos recursos que permitem obter esse efeito de sentido. Todos são fundamentais para que se conheça bem o funcionamento de uma língua", avalia.

Já no caso do colégio Cermac, também na capital paulista, existe a preocupação de incluir no programa de literatura textos de autores de comédia, como os de Luis Fernando Veríssimo, entre outros. Para a diretora Roberta Mardegam, a experiência do humor é muito valorizada principalmente no cotidiano de sua instituição de forma consciente. De acordo com sua experiência como coordenadora, o bom humor sempre contribui para construção de vínculos fortes com os alunos - e ela dá essa recomendação para os professores.

Diversos contextos
Em muitas situações, é na sala de aula que se revela o impacto motivador do riso. O humor é também um recurso legítimo de didática. Não se trata do velho e contestado "aprender brincando", mas de uma forma de cativar o aluno, criar vínculos e motivá-los por meio de uma forma de expressão humana da qual todos gostam. Novamente, é preciso cuidado. Bom humor não significa rir à toa, de forma desenfreada. Do mesmo modo, as razões do riso variam da sacada inteligente ao sarcasmo agressivo. Para o professor que pretende lançar mão do humor como uma estratégia de encantamento, é preciso consciência sobre este processo. Muitas vezes, não é preciso desenvolver técnicas de humoristas, mas simplesmente criar um ambiente um pouco menos rígido, com momentos de respiro e expressão dos alunos.
Pode ser interessante estar atento às coisas engraçadas e às expressões que os próprios alunos utilizam, para trazê-las em evidência nos momentos certos, ou mesmo registrar histórias leves que possam ser contadas eventualmente para todos. Há também jogos com trocadilhos e outros recursos pontuais a serem explorados, mesmo por aqueles que julgam não ter muito jeito para a coisa. "É claro que existem momentos de seriedade e não se deve rir de tudo, mas a postura de encarar o cotidiano com humor é um componente importante da qualidade do ambiente", diz Roberta Mardegam, do Cermac. Para Marta, da Escola Viva, o humor permite dar espaço para escuta como um respiro durante as aulas. "Evidentemente isso apenas não resolve, mas nos permite discutir para ver como resolver as dificuldades, olhando de fora os problemas", lembra.

Professor e gestor
Para o consultor em gestão Marcelo Maghidman, investir em um ambiente bem-humorado não é um desafio apenas para os professores. Trata-se de uma preocupação que deve começar na gestão. Até porque muitas vezes um ambiente institucional é falsamente leve. O riso muitas vezes não é sinônimo de bom humor. Nos ambientes corporativos, especialmente, há quem ria por conveniência social, para fugir de problemas ou simplesmente não acusar a insatisfação. Maghidman atribui ao líder escolar o papel de dar o tom do ambiente da escola, o que fará por ato ou omissão. O humor é sabidamente uma característica da liderança positiva - e, de novo, nada tem a ver com ser bonzinho e dizer sim a tudo. Mas é uma mensagem clara de que é possível enfrentar as dificuldades de forma coletiva, com respeito às pessoas e com trabalho em equipe. "O bom humor, assim como o mau humor, tem um efeito irradiador no ambiente", diz. Por isso, para o consultor, o líder pode estabelecer um clima organizacional diferente e levar isso em consideração na própria montagem de sua equipe.
Assim, para alunos, professores e gestores escolares, está aí uma boa ideia para começar o ano com o pé direito. Entre tantos temas árduos na educação, numa instituição com tantos desafios, pode ser um bom caminho temperar o planejamento, as leituras, o currículo, enfim, toda a escola, com uma pitada desse poderoso elixir da saúde mental, tão temido por seu poder transformador: o riso.

Fonte: Revista Educação

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Mais atenção aos notívagos

O aumento no número de matrículas nos cursos noturnos, acompanhado da alta taxa de evasão, requer a adoção de medidas que garantam uma maior motivação aos alunos e a permanência no curso 

Gérson Trajano
O crescimento dos cursos noturnos, que acompanhou a expansão das instituições de ensino superior desde a década de 1990, é um reflexo do aumento da demanda de estudantes trabalhadores. Manter o interesse dos alunos até o final do curso, no entanto, ainda é um desafio para as instituições, que, especialmente no turno da noite, precisam lançar mão de recursos que favoreçam a motivação dos estudantes para o aprendizado, como o oferecimento de currículo, carga horária e instalações adequados ao período, além de ter professores dinâmicos e motivadores.

Os cursos noturnos das instituições particulares são o universo mais representativo do aumento do ensino superior no Brasil. Estudo do Observatório Universitário, uma organização não governamental que analisa o setor universitário brasileiro, de agosto de 2009, estima que, em média, 70% dos alunos das instituições de ensino superior particular estão matriculados no período noturno.

O documento mostra que, em 1999, 55,7% dos alunos estudavam à noite. Oito anos depois, em 2007, o percentual passou para 61,7%. Enquanto o ensino diurno registrou 821.961 novas matrículas no período, os cursos noturnos registraram cerca do dobro, com 1.688.475 novos alunos.

O crescimento é atribuído aos novos estudantes oriundos majoritariamente das classes C e D, que trabalham durante o dia e por isso buscam a graduação à noite. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2002 e 2009, a proporção de universitários originários dessas classes sociais subiu de 45,3% para 72,4%.

Estrutura adequada
Para atender melhor esses alunos e garantir que eles permaneçam na instituição até a conclusão do curso, é preciso atentar às diferenças no perfil dos estudantes do diurno e noturno. "Normalmente não há uma gestão específica para esses segmentos, o que é uma falha. Isso pode desmotivar o aluno e afastá-lo da escola", diz Humberto Felipe da Silva, consultor educacional da TP&S Consultoria.

De acordo com o consultor, são vários os fatores que podem contribuir para criar um ambiente acolhedor, de conhecimento e que mantenha o interesse do aluno no decorrer do curso. Um deles é a configuração do espaço físico, mais propício para circulação à noite, com estrutura adequada para receber os alunos tanto nas salas de aula quanto nos demais espaços educativos, como bibliotecas, ou setores administrativos do campus. É recomendado adotar uma boa iluminação, limpeza e instalações modernas com quadros de avisos informatizados, por exemplo, que chamam a atenção do aluno, além de possibilitar um diálogo mais direto com ele.

Outro fator essencial está justamente relacionado ao atendimento do estudante. É preciso conhecer o perfil do matriculado, suas aspirações e dificuldades e procurar manter uma comunicação de maneira individualizada com o aluno, a fim de lhe dar suporte para a resolução de eventuais problemas enfrentados, seja no que diz respeito a sua vida acadêmica ou em relação a dificuldades de ordem administrativa e financeira.

Para a professora Lourdes de Fátima Possani, doutora em Educação pela PUC São Paulo e organizadora do livro Reforma Universitária: sinais do Sinaes, um dos pontos mais importantes refere-se ao currículo e a questões pedagógicas. "Precisamos de um currículo diferenciado, que considere a peculiaridade do aluno trabalhador, sem que haja empobrecimento em relação a conteúdos e metodologia de ensino, bem como apoio pedagógico específico nas áreas onde for detectada maior necessidade de acompanhamento", afirma a educadora.

Edson Nunes, pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento da Universidade Candido Mendes, também é favorável a um currículo ajustado. "`Podem-se oferecer disciplinas de educação suplementar, que complementem o conteúdo do curso", aponta Nunes.

Especialistas e educadores concordam que o professor é um dos elos mais importantes no processo de ensino, pois é com ele que o aluno passa a maior parte do tempo na escola. Nesse sentido, uma dica é investir no corpo docente, com a contratação de professores dinâmicos e atentos às necessidades de aprendizado dos alunos.

"O professor deve respeitar e considerar a experiência de vida e de trabalho do estudante, propiciando-lhe articular sua experiência com novos saberes, no sentido de não só receber, mas também construir conhecimento", afirma a professora Lourdes. Além disso, o docente deve se manter atualizado e propor novas abordagens de aprendizado.

Na Universidade Cruzeiro do Sul (UCS) o diferencial também está dentro da sala de aula. A instituição desenvolve o projeto Aprender na Prática, que estimula a relação dentro da classe entre professores e alunos. O método tem como eixo principal o professor, que deve incentivar a participação ativa e crítica do universitário, explorando o seu cotidiano e o aprendizado anterior. A intenção é valorizar o conhecimento do aluno e com isso motivá-lo a continuar no curso. A iniciativa gerou a publicação do livro Aprender na prática: experiências de ensino e aprendizagem, que reúne relatos de atividades dentro e fora da sala de aula, e se tornou uma referência para as ações da universidade.

Apoio complementar
Outro fator que assombra as instituições de ensino superior é o baixo nível de formação dos estudantes que saem do ensino médio. Em 2009, os alunos do 3º ano do ensino médio submetidos ao Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) somaram menos de 275 pontos na disciplina de matemática e 270 em português, desempenhos considerados inadequados para o período conforme avaliação do Todos Pela Educação. Para a entidade a pontuação mínima que deve ser obtida por esses alunos na escala do Saeb é de 300 pontos em português e 350 em matemática.

Para resolver o problema da baixa escolaridade dos jovens que chegam ao ensino superior, o consultor Humberto Felipe da Silva sugere às instituições implantarem mecanismos de nivelamento. "O nivelamento tem uma influência básica na capacidade de aprendizagem que reflete no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) e na competência dos formandos", afirma.

Na opinião de Fernando Soria, diretor de Negócios da Faculdade Sumaré, o curso superior noturno deve ser pensado levando em consideração o perfil educacional do estudante, que em sua maioria vem das escolas públicas. A instituição aplica, logo no primeiro semestre da graduação, testes de conhecimentos de matemática, língua portuguesa e informática, e a partir do resultado, traça uma estratégia para que o aluno evolua, sinta-se prestigiado e acompanhe as disciplinas do currículo.

Outro diferencial adotado pela Sumaré para os alunos do período da noite é ter uma grade de horários de entrada e de permanência nas aulas mais flexível nas sextas-feiras, além de incluir uma opção aos sábados pela manhã.

8 dicas que fazem com que estudar à noite seja mais agradável
  • Ambiente adequado para circulação à noite, bem sinalizado e com boa iluminação
  • Salas de aula confortáveis e demais espaços de convivência modernos e agradáveis
  • Adotar quadros de avisos informatizados e dinâmicos
  • Setor de acompanhamento e atendimento ao aluno individualizado
  • Carga horária adequada às necessidades do aluno trabalhador
  • Apostar em metodologias de ensino inovadoras
  • Oferecer disciplinas de complementação de conteúdo
  • Ter professores dinâmicos e atentos às necessidades de aprendizado

O aluno do período
Os estudantes do noturno são geralmente pessoas de classe média baixa ou classe baixa. Alguns são os primeiros representantes da família a ingressar em um curso superior. Segundo o último Censo da Educação Superior, em 2009, mais de 55% dos alunos eram mulheres. São jovens que trabalham, alguns já constituíram famílias, e dedicam pouco tempo à leitura. Em média, dormem de 5 a 6 horas por dia e estudam 3 horas por semana. Um parcela significativa mora longe da escola e o transporte, juntamente com a mensalidade, tornam-se o item de maior peso no orçamento. Ainda de acordo com o Censo, três de cada dez alunos matriculados em instituições particulares obtiveram bolsa de estudo. Entre o total de bolsistas, 1.019.532 (82,5%) são de programas reembolsáveis e 215.777 (17,5%) de não reembolsáveis.
Fonte: Revistaensinosuperior UOL